Do arroz com feijão ao shake: uma conversa sobre nutricionismo
15 de agosto de 2025 · 3 min de leitura
“Quando o nosso querido arroz, feijão, bife e verdura passou a, simplesmente, ser conhecido como carboidratos, proteínas e lipídios?” — é com essa provocação que a nutricionista Juliana Jesus, que atua no Coletivo Feminista, abre a conversa sobre alimentação e saúde.
Segundo ela, é preciso olhar para além dos nutrientes. “A ciência da nutrição é uma ciência nova dentro das ciências médicas, datando mais ou menos do final do século XIX e início do XX. Naquele momento, o foco era entender a composição dos alimentos para tratar doenças comuns na época, ligadas à deficiência de vitaminas, como o escorbuto, causado pela falta de vitamina C.”
Esse olhar científico foi fundamental, mas também abriu espaço para uma visão reducionista da alimentação: “Com o tempo, a nutrição passou a ser compreendida muito em termos de carboidrato, proteína e lipídio. Essa abordagem focada apenas em nutrientes é o que chamamos de nutricionismo.”
O termo, cunhado por um pesquisador australiano a partir da junção de “nutrição” e “reducionismo”, mostra como pensar a comida apenas pelos nutrientes é limitado — e muitas vezes serve a interesses de mercado. “O Guia Alimentar da População Brasileira também traz essa crítica e propõe outro olhar: não importa só o nutriente, mas o processamento do alimento. A questão não é se você come carboidrato ou proteína, mas como esse alimento chegou até o prato — fresco, minimamente processado ou ultraprocessado pela indústria.”
Juliana exemplifica: “O nutricionismo é muito usado pela indústria de alimentos quando ela oferece substitutos para a refeição. Ao invés de almoçar, que tal um shake completo, cheio de nutrientes? Esse é um exemplo clássico de como o nutricionismo aparece.”
Mas os alimentos não se resumem a nutrientes isolados. Existe o que chamamos de matriz alimentar — a estrutura que sustenta esses nutrientes. “O que está dentro de um grão de arroz, por exemplo, interage com o nosso corpo de uma forma específica. Isso é diferente de tomar apenas cápsulas ou vitaminas isoladas. O corpo responde ao alimento em sua integralidade.”
Além disso, a alimentação não é apenas biológica. É também social, cultural e afetiva. “A forma como comemos tem muito a ver com o nosso social, a nossa rede, comer junto. Isso afeta diretamente nosso bem-estar e nossa saúde. Cuidar da alimentação é também cuidar dos vínculos.”
No dia a dia corrido, com pouco tempo para cozinhar e sob a pressão da cultura da dieta, é fácil cair em soluções rápidas e industrializadas. Mas Juliana deixa um lembrete: “O que salva, o que cuida, o que é bom para a gente de fato é a comida de verdade. Precisamos buscar estratégias — coletivas e individuais — para manter esse alimento no nosso cotidiano.”
Jacobs DR, Tapsell LC. Food synergy: the key to a healthy diet. Proc Nutr Soc. 2013 May;72(2):200-6.
SCRINIS, Georgia. Nutritionism: the science and politics of dietary advice. New York: Columbia University Press, 2013.
BRASIL. Ministério da Saúde. Guia alimentar para a população brasileira. 2. ed. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2014. 156 p.
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