

Existe mutilação genital feminina no Brasil?
No mês de fevereiro, a OMS instituiu o “Dia Internacional da Tolerância Zero à Mutilação Genital Feminina”, uma data importante que tem feito com que cada vez mais se fale sobre essa pratica, que ainda é uma tradicão em 30 países do norte de África e Oriente médio, em menor número na Ásia e América Latina.
Foi a partir dos anos 90 que, através dos fluxos migratórios, o ocidente começou a receber mulheres mutiladas e então essa pauta foi sendo cada vez mais colocada por organizações de saúde, feministas e dos direitos humanos.
O assunto é tão delicado e visceral que muitas pessoas têm dificuldades de entender realmente o que é a mutilação genital e como ela é feita, porque só de imaginar os órgãos genitais de uma pessoa sendo cortados de diversas maneiras e em situações quase sempre muito precárias, fica dificil de seguir o assunto.
Além disso, o fato de ser uma tradição que acontece em países que já sofrem com diversas discriminações como a islamofobia e o racismo, faz com que o olhar para quem pratica a mutilação genital (ela é feita em mulheres e por mulheres) seja ainda muito pior.
Então, achamos que vale a pena aproveitar as reflexões que essa data tem trazido e olhar para nós. A partir do horror que nos causa uma prática que acontece distante de nós, vale a pena refletir: -Qual é o mais próximo que chegamos disso? Existe aqui, algum tipo de prática na linha da mutilação genital feminina?
O Brasil é um país que apresenta altas cifras de manipulação dos órgão genitais femininos, por razões diferentes.

• Ninfoplastias: As ninfoplastias são cirurgias na vulva para alterar a anatomia da vulva. O Brasil é campeão mundial em cirurgias íntimas –a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) aponta que 25 mil intervenções do tipo foram realizadas no ano passado. Algumas dessas cirurgias são necessárias para melhorar a qualidade de vida de algumas mulheres, mas outras são oferecidas nos consultórios médicos, muitas vezes sem que seja uma demanda explícita da paciente, mas que frente a autoridade médica, acabam se convencendo que esse pode ser uma caminho para melhorar seus relacionamentos, sua vida sexual, auto estimas, etc.
• O ponto do marido: Essa é uma prática cruel e machista, onde médicos oferecem aos maridos um “presente”, quando são necessários pontos na região do períneo para fechar lacerações (espontâneas ou episiotomia) após o parto. Eles propõem fazer pontos mais apertados a fim de provocar um estreitamento no canal vaginal que beneficiaria os homens com uma vagina mais apertada para a relação sexual. Essa prática deveria nos causar um horror similar ao da mutilação genital e ela é praticada amplamente nos centros obstétricos Brasil afora, sendo um momento de piada e descontração entre médicos e marido das parturientes.
• Episiotomia: A episiotomia é um corte cirúrgico efetuado no períneo (conjunto de músculos próximos a vulva e ânus) ao final do parto, no período expulsivo, já quando a cabeça do bebê começa a sair. Os profissionais que a praticam alegam que ela é necessária para facilitar a saída do feto e para proteger os órgãos genitais femininos de lacerações graves. Profissionais da obstetrícia aprendem essa prática durante a formação e a reproduzem em 53,5% das parturientes no Brasil. Apesar de ser uma prática validada por todas as sociedades médicas brasileiras e mundiais, hoje os estudos mostram que não existem evidências científicas suficientes que respaldem a sua prática. De fato, profissionais da obstetrícia que atuam em base a evidências científicas, apresentam taxa zero de realização da prática.
Cabe então a pergunta: Se as evidências mostram que não deve ser feita e é uma prática que profissionais já aboliram, qual seria a razão de seguir sendo normalizado sua prática e ensinando-a?
Por todos os exemplos anteriores, achamos que vale a pena observar que fazemos parte de uma cultura que, ainda que não mutile, permita e promova intervenções, cortes e manipulações nos órgão genitais femininos, muitas vezes sem o consentimento das mulheres que estão sofrendo essas intervenções, algo que por si só, é proibido por lei. Também é importante ressaltar que na contramão de diversos países, o Brasil ainda não proibiu a Mutilação Genital Feminina.
