Corrimentos e Saúde Íntima: o que é normal e o que merece atenção?

Corrimentos e Saúde Íntima: o que é normal e o que merece atenção?

O corrimento vaginal é uma secreção natural, produzida pelo colo do útero e pela vagina e tem funções fundamentais para a saúde íntima da mulher e das pessoas com vulva: ajuda a manter o ambiente vaginal saudável, elimina células mortas e bactérias, atua como lubrificante e varia em quantidade, cor e consistência ao longo do ciclo menstrual.

E a quantidade de secreção? Depende de cada corpo! Assim como tem pessoas que transpiram mais do que outras, algumas têm mais secreção do que outras. Você pode notar só um pouquinho ou nem perceber, mas também é normal ter bastante secreção. O tipo de corrimento vaginal também pode variar conforme a fase do ciclo:

  • O corrimento branco é normal, especialmente na primeira fase do ciclo. Ele pode ser mais espesso, parecido com creme.
  • O corrimento aquoso ou transparente pode ser comum durante a ovulação devido ao aumento do estrogênio e na prática de exercício físico e na excitação sexual, pelo aumento de fluxo sanguíneo na região pélvica que ambas as situações favorecem. 
  • Já o corrimento elástico, semelhante à clara de ovo, geralmente indica o período fértil.
  • Até mesmo um corrimento amarelado, se não está acompanhado de odor forte e nenhum outro sintoma,  pode ser normal. Muitas vezes é apenas secreção que oxidou em contato com o ar ou secou na calcinha.
 
 

Mas, se tudo isso faz parte da fisiologia, por que tanta gente se incomoda?

A resposta está numa mistura de tabu, falta de educação sexual, medicalização excessiva, infantilização dos corpos com vulva e até interesses da indústria da “higiene íntima feminina”. Isso transforma o que é fisiológico em motivo de vergonha e leva muitas pessoas a gastar dinheiro com soluções caras e ineficazes: sabonetes íntimos que prometem “regular o pH vaginal desregulado”, perfumes para vulva e duchas vaginais que, na prática, desequilibram a saúde da flora vaginal.

A médica de família e comunidade Ana Paiva, que atua no Coletivo Feminista, explica: “uma dúvida muito comum é se precisamos usar sabonete íntimo especial. Não temos muitos estudos sobre isso. O que sabemos com certeza é que as duchas vaginais, isto é,  lavar por dentro da vagina com água ou sabão, não são recomendadas. Elas aumentam até três vezes a chance de infecção.”

Segundo a médica, para lavar a parte externa pode-se utilizar só água ou água com sabão: “de forma geral, é muito individual. Se você se sente bem apenas com água, ótimo. Se quiser usar sabonete é importante escolher bem: de preferência líquido, hipoalergênico, sem cheiro e sem corante. E, se possível, mais ácido, para combinar com a acidez da região.”

Ou seja: a vagina é autolimpante, podendo ser higienizada apenas com água. O que protege não é exagerar nos produtos, mas sim conhecer o que é normal no seu corpo.

Quando o corrimento merece atenção?

É importante diferenciar o corrimento fisiológico do patológico. Alterações como:

  • Odor forte na vagina (cheiro de peixe, por exemplo);
  • Corrimento com bolhas, grumos ou aspecto esverdeado;
  • Coceira vaginal intensa;
  • Inchaço, ardência e vermelhidão na vulva; 
  • Dor ao urinar;

podem indicar infecções como:

  • Candidíase: a candidíase vaginal é uma infecção comum causada pelo fungo Candida albicans, que normalmente vive na flora vaginal e intestinal sem provocar sintomas. Quando ocorre desequilíbrio da microbiota, em geral relacionado à baixa imunidade, excesso de glicose ou alterações no pH vaginal, o fungo se multiplica e desencadeia sinais como: coceira, ardor, corrimento branco espesso em grumos (semelhante a coalhada), inchaço e vermelhidão da vulva, podendo causar dor ao urinar ou durante relações sexuais.
  • Vaginose bacteriana – a vaginose bacteriana também acontece quando há desequilíbrio da flora íntima: os lactobacilos, que normalmente protegem a vagina, diminuem, dando espaço para o crescimento excessivo de diferentes bactérias anaeróbias e facultativas, sendo as mais comuns: Gardnerella, Atopobium, Prevotella, Bacterioides sp, Mobiluncus sp, Clostridium e Mycoplasmas, Sneathia spps. O sintoma da vaginose e da gardnerella é a presença de corrimento com odor forte na vagina caracterizado como “cheiro de peixe” ou “cheiro de amônia”, que tende a se intensificar durante a menstruação ou após relações sexuais sem preservativo.
  • Tricomoníase: a tricomoníase é uma infecção sexualmente transmissível causada pelo protozoário Trichomonas vaginalis. Os principais sintomas incluem corrimento abundante amarelado ou esverdeado, coceira, queimação ao urinar e desconforto durante a relação sexual.
 

Nesses casos, o ideal é buscar atendimento com um profissional da saúde para um tratamento para corrimento com cheiro ou coceira, que pode incluir antifúngicos, antibióticos locais ou orais, sempre após avaliação profissional.

 

Mas lembre-se: reconhecer o normal é o primeiro passo!

Características do corrimento normal:

  • Cor: transparente, claro ou branco leitoso (pode parecer amarelado ao secar).
  • Consistência: aquoso, mais espesso ou elástico (na ovulação).
  • Odor: leve, às vezes ácido — reflexo do pH vaginal saudável, que é levemente ácido.
  • Quantidade: varia durante o ciclo, aumentando na ovulação, na excitação sexual e durante a gestação. 

Conhecer os padrões do próprio corpo é essencial para perceber quando algo foge do esperado.

E você, já se incomodou com seu corrimento? Como tem sido a sua relação com seu corpo e com a saúde íntima?

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