Congelamento de óvulos

UMA TECNOLOGIA CADA VEZ MAIS USADA
O congelamento planejado de óvulos é uma prática relativamente recente e seu uso vem crescendo rapidamente.
No Brasil, um estudo de uma clínica encontrou aumento de quase 500% nos ciclos (processo médico completo para estimular, coletar e congelar os óvulos para uso futuro) entre 2013 e 2022¹. Nos EUA, entre 2014 e 2021, o número de pessoas que realizaram congelamento planejado passou de 4.153 a 16.436, quase 4 vezes mais em 7 anos².
QUEM DE FATO TEM ACESSO?
O crescimento do congelamento de óvulos é direcionado a pessoas socialmente privilegiadas.
Os estudos mostram um perfil relativamente consistente entre quem realiza ou considera o congelamento planejado: mulheres cis brancas, com idade média de 37 anos, com alta escolaridade, economicamente ativas e frequentemente sem parceria no momento da decisão.
PRESSÃO REPRODUTIVA
“Você precisa pensar em ter filhos antes que seja tarde.”
Mulheres cis e pessoas com útero convivem com uma espécie de contagem regressiva reprodutiva, uma pressão que se soma à lista de estudar, trabalhar, construir uma carreira e alcançar estabilidade.
Nesse contexto, o congelamento de óvulos aparece como uma possibilidade interessante.
MAS E ANTES DO RELÓGIO COMEÇAR A CORRER?
Falamos pouco sobre projetos reprodutivos ao longo da vida.
A educação sexual, quando existe, ensina mais sobre evitar uma gravidez do que sobre pensar se, quando e como queremos ter filhos.
E, de repente, aparece o “relógio biológico” exigindo decisões que talvez nunca tenhamos tido espaço para construir.
O QUE É?
O “congelamento de óvulos”, ou a criopreservação planejada de oócitos, realizada por vitrificação, é uma técnica de preservação da fertilidade.
Pode ser importante antes de tratamentos que podem comprometer a função dos ovários, como alguns tratamentos contra o câncer. Também pode ser utilizado por pessoas que desejam adiar a tentativa de gravidez.³
Como funciona?
A pessoa usa medicamentos para estimular os ovários a produzirem vários óvulos. Depois, eles são retirados por um procedimento realizado com sedação e congelados para uso no futuro.
A IDADE IMPORTA
A idade no momento do congelamento é um dos principais fatores associados aos resultados futuros.
Em geral, óvulos congelados em idades mais jovens (<35 anos) têm maior potencial reprodutivo. Mas isso não significa que exista uma idade que garanta sucesso. Tampouco existe robusta evidência científica sobre o número ideal de oócitos a serem preservados³ ⁵.
E QUANTAS PESSOAS USAM?
Esse é um dado frequentemente ignorado.
Em uma meta-análise com 13.724 pessoas, apenas 10,8% retornaram para descongelar seus óvulos⁴. Em outra revisão, o retorno foi de 11,1%⁵.
Ou seja: até o momento, a maioria das pessoas que congela óvulos ainda não os utilizou. Isso pode acontecer porque ainda não chegou o momento, porque a pessoa não precisou deles ou por outros motivos.
E QUANTAS CONSEGUEM TER UM BEBÊ?
Entre as pessoas que retornaram para utilizar os óvulos, uma meta-análise encontrou uma taxa de nascidos vivos de aproximadamente 29%⁴. Em outra revisão, encontrou-se 52% para aquelas que congelaram até 35 anos e 19% aos 40 anos ou mais.⁵
Esses achados, contudo, refletem informações das clínicas incluídas nos estudos e não devem ser interpretados como uma previsão individual. Essas taxas variam conforme diversos fatores como técnicas utilizadas pelo serviço e fatores individuais.
DADOS BRASILEIROS
Em um estudo brasileiro com 2.073 mulheres, realizado entre 2013 e 2022, os ciclos para criopreservação oocitária planejada aumentaram quase 500%. Entre as mulheres com óvulos armazenados, 7,6% retornaram para utilizá-los e entre as que retornaram, 47,3% tiveram nascidos vivos¹.
Congelar óvulos não é uma garantia de nascimento no futuro.
AUTONOMIA REPRODUTIVA
O congelamento de óvulos pode ser uma opção importante para algumas pessoas. Mas ainda faltam informações claras sobre seus resultados e limites, o que pode dificultar uma decisão bem informada.
E falar em autonomia reprodutiva exige olhar além das escolhas individuais. Em uma sociedade em que direitos reprodutivos ainda são constantemente ameaçados, precisamos ampliar o debate sobre quem tem acesso a essas tecnologias e sobre como dividir de forma mais justa a responsabilidade pela reprodução e pelo cuidado.
Referências:
- CHÉLES, D. S. et al. A decade of elective egg freezing in Brazil: reproductive outcomes of women using stored oocytes. Reproductive BioMedicine Online, 2026. DOI: 10.1016/j.rbmo.2026.105825.
- LEE, M. B. et al. Elective fertility preservation: a national database study on trends in oocyte cryopreservation and oocyte utilization over a 5- to 7-year follow-up period. American Journal of Obstetrics & Gynecology, 2026. DOI: 10.1016/j.ajog.2025.08.032.
- ANDERSON, R. A. et al. ESHRE guideline: female fertility preservation. Human Reproduction Open, 2020. DOI: 10.1093/hropen/hoaa052.
- KIRUBARAJAN, A. et al. Return rates and pregnancy outcomes after oocyte preservation for planned fertility delay: a systematic review and meta-analysis. Fertility and Sterility, 2024. DOI: 10.1016/j.fertnstert.2024.06.025.
- HIRSCH, A. et al. Planned oocyte cryopreservation: a systematic review and meta-regression analysis. Human Reproduction Update, 2024. DOI: 10.1093/humupd/dmae009.

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